Meu Presente de Natal
Jamais houve um Natal como este. Nem faz dois meses, perdi meu pai. A COVID-19 roubou de mim muitos anos de convívio com um velhinho que, imaginávamos todos, não partiria antes de cem anos bem vividos. Minha mãe está isolada, com suspeita – supomos infundada, mas não se pode arriscar – de COVID-19. Minha irmã cuida dela, as duas trancadas sozinhas. Minha esposa e minha filha, a centenas de quilômetros de mim. Eu estou sozinho.
As primeiras notas da primeira vez que ouvi Noite Feliz nesta véspera de Natal me encheram de pranto. Ouvi muita música natalina, assisti a muita fala natalina, li de homens que buscavam o sentido maior da vida, jantei pão dormido com arremedo de café que eu mesmo fiz. Só, triste e, no entanto, grato. Só, triste e grato. Grato. Pelos que eu amo e que me amam.
Fui dormir, enfim. E ganhei meu presente. Sonhei com meu pai. Pude passar precioso tempo com ele de novo. Na casa dele, onde sempre fui recebido com amor inefável. Não era uma imitação tosca, era meu pai na sua inteireza, inclusive com aqueles aspectos desagradáveis que só os íntimos conheciam, tão simpático e universalmente adorado ele era fora de casa. Não, as suas pequenas chatices não estragaram meu presente. Só o tornaram mais vivo, mais real, mais verdadeiro.
Mas nós sabíamos. Eu, Marcela, Gabriel – meus sobrinhos – e Ase, minha irmã, que ama meu pai de um jeito que faz meu amor parecer indiferença. Nós sabíamos que ele já tinha morrido. Como ele podia estar conosco? Simples: meu pai morrera noutra linha temporal, em outro episódio da série. Naquele episódio, a que assistíamos e do qual fazíamos parte, o evento de sua morte ainda não ocorrera. Mas era preciso muito cuidado. Nenhum de nós queria dizer a ele que sua presença entre os vivos era obra de uma travessura do Tempo que, brincando de esconde-esconde com a Morte, trouxera meu pai num dos bolsos exatamente pra onde ele era tão desejado e querido. Que bem lograria meu pai em saber que dali a um ou dois episódios sua vida chegaria ao final? Melhor deixá-lo assim, naquele sorriso satisfeito, enrolado naquela toalha fina que mal lhe escondia o bucho avantajado, prestes a tomar um de seus banhos que melhor seriam se dados por um adulto de verdade, desses mais sisudos que meu velhinho algo desleixado.
Ademais, Hades é deus perverso. Como Orfeu conduzindo Eurídice pra longe do submundo sombrio, andávamos no fio da navalha. Cada palavra, cada risada, cada história partilhada – nas usinas onde ele era senhor de todas as memórias – podia ser a última. Todo cuidado era pouco, um passo em falso, uma palavra incauta, um olhar pro lado errado podia fazer dissipar-se de repente, e talvez pra nunca mais, aquele momento eterno em que podíamos, sim, estar de novo com nosso pai, nosso painho, nosso vô.
Nossa cautela foi recompensada. No dia de Natal, acordei feliz. Nada, ninguém, nem mesmo Hades, conseguiu estragar meu presente. Desta vez, meu pai nem morreu.

Que texto! Que reflexão! Que tanto amor demonstrado. 😊♥️🙌👏👏👏👏
ResponderExcluirO melhor presente!!!!
ResponderExcluirRosivaldo, suas palavras foram muito precisas. Eu conheci esse grande homem. Ele era meu amigo e nos conhecíamos como irmão. Era O irmão Antônio, dono das histórias da Construção das Usinas PA I, PA II, PA III e PA IV. Ele foi cedo, era pra ter vivido mais tempo, mas, infelizmente, quem viveu esse tempo feliz de "cidade", aprende depressa a chamar, a tudo isso, de "realidade".
ResponderExcluirEsse eu tenho certeza que será um daqueles que ressuscitaram na volta do Senhor Jesus Cristo! Seu pai e meu grande amigo!
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