Mimosa e Bela
Nosso jardim tinha um espaço reservado para plantarmos onze-horas. Sem grama. Mas o jardineiro demorou. E nasceram nesse espaço muitas dormideiras (sensitivas). Minha filha adorava fazê-las dormir. Um belo dia, meu pai, que nos visitava, inocentemente arrancou todas aquelas "ervas daninhas", com seus espinhos ameaçadores. Vovô queria o bem da neta, claro. Mas ela sente falta das dormideiras até hoje. Acha que pode fazer a mesma brincadeira com as quebra-pedras que encontra.
As onze-horas já estão em seu lugar. Belas como são, nunca foram tão interessantes quanto as dengosas dormideiras. Para minha filha, a quem amo mais que tudo, dedico o poema abaixo.
Mimosa e Bela
Gonçalves Dias
I
Tão
bela és, tão mimosa,
Qual
viçosa
Fresca
rosa,
Que
em serena madrugada
Despontada,
Rorejada
Foi
pelo orvalho do céu;
E
a aurora que tudo esmalta,
Brilha
reflexos de prata
No
orvalho que ali prendeu.
II
Quando
um penar aflitivo,
Sem
motivo,
D’improviso
Tua
alma ocupa e entristece,
Que
padece,
Que
esmorece
Com
aquele imaginar;
Aumenta
a tua beleza
Lânguido
véu de tristeza,
Palor de quem sabe amar.
III
Assim
murcha a sensitiva,
Sempre
viva,
Sempre
esquiva;
Assim
perde o colorido
Por
um toque irrefletido
Mal
sentido:
Assim
vai o nenúfar,
Como
que sofre e tem mágoas,
Esconder-se
em fundas águas,
Té
que o sol torne a brilhar.
IV
Mas
também a flor brincada,
Perfumada,
Debruçada
Sobre
a tranqüila corrente,
Logo
sente
Vir
a enchente
Longe,
longe a rouquejar,
Que
a pobrezinha desfolha,
Sem
lhe deixar uma folha,
Sem deixá-la em seu lugar.
V
Não
consintas pois que as mágoas,
Como
as águas,
Que
das fragas
Furiosas
vêm tombando,
Vão
tomando,
Vão
levando
A
flor do teu coração!
Há
na vida u’amor somente,
Um
só amor inocente,
Uma
só firme paixão.
VI
Sê
antes flor, bem-fadada,
Suspirada,
Bafejada
Pela
brisa que a namora,
Pela
frescura da aurora,
Que
a colora:
À
luz do sol se recreia.
E
de noite se retrata
Da
fonte na lisa prata,
Quando
o céu de luz se arreia.
O artista das coisas do mundo fizera pausa no trabalho. Foi nesse recreio que inventou as sensitivas, para o bom gosto de Vitória. Só não entendi por que deixara por ali uns espinhos. Será que queria brincar sozinho?
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